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Capítulo VIII – A capela do Tamanduá e Antonio Luiz Lamin, “O Tigre”

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– O início da ocupação dos Campos Gerais, o “Tamanduá” poderia ter se tornado uma cidade.

Observação: A Biografia de Antonio Luiz Lamin, “O Tigre”. (Também faz parte da história da Cidade de Balsa Nova)

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Sempre salientarei a regra básica para conhecer a história. “Recapitular o que se conhece do passado”. A história é feita de conexões das mais diversas, que ocorreram em vários lugares diferentes, com pessoas diferentes, que um dia influirão ou influenciarão no nascimento de novas histórias.

Campo Largo é uma união de várias histórias em tempos diferentes. A ocupação dos campos gerais só aconteceu após as divisas do Tratado de Tordesilhas serem abandonadas, das minas de ouro do Itambé e do Açungui, que não produziam mais, atraíssem novos aventureiros, da descoberta dos caminhos que ligavam as terras do Sul, ainda pouco conhecidas do então chamado “Tape”, nas terras do Rio Grande de São Pedro do Sul e a ligação com Sorocaba, nas terras de São Paulo de Piratininga.

Os pedidos de “Termos de Posse”, de áreas de terra chamadas de “Sesmarias”, se tornaram a maneira mais simples a muitos aventureiros, de serem proprietários e terem poder. Nos anos 1700 não havia escravidão negra, mas sim, “os Bandeirantes” viajavam pelo sertão aprisionando índios para o trabalho escravo (Gentios da Terra). Também os missionários religiosos que procuravam “civilizar os índios” através da catequização dos selvagens sob a desculpa da necessidade da cristianização.

Um homem teve papel muito importante no “Caminho das Tropas” – Antonio Luiz Lamin o “Tigre” ou também chamado “Capitão Tigre”.

Por tradição, na história da Cidade de Campo Largo, diz-se que foi o primeiro proprietário do Campo Largo. Isto não aconteceu. Mas ele foi o maior proprietário de terras que vieram a formar a demarcação geopolítica desde 1669 até seu falecimento.

A ideia de que ele seria o proprietário do Campo Largo, surgiu a partir do primeiro relato feito pelo então Alferes José Pinto Ribeiro Nunes, mais tarde foi o primeiro professor público do povoado, que era chamado “Mestre Pinto”, escreveu no livro de esmolas da Capela de Nossa Senhora da Piedade, que se tornou o primeiro livro com anotações sobre a formação do povoado. Outro engano também foi a data anotada da abertura da Capela à comunidade, que dizia a data “2 de fevereiro de 1826”, que até hoje, por tradição, é considerada a data oficial da inauguração, mas a data real documentada é dia “2 de fevereiro de 1827”. Isto é uma outra história que conheceremos de forma completa, com documentos, em outra data.

Conheçam então a primeira parte da biografia do maior proprietário de terras na região do Campo Largo.

ANTONIO LUIZ LAMIN “O TIGRE”: Biografia

Homem que teve a vida ligada ao maior povoado da região dos campos gerais no início do século XVIII, a Sesmaria do Tamanduá. Ela poderia ter se tornado sede de Vila organizada, se seus moradores assim o quisessem. Possivelmente poderia ter sido um município, se não tivesse sido extinto no início do século XIX. No final do século XVII, Antonio Luiz Lamin ou Antonio Luiz Tigre, ou Capitão Tigre, como foi assim chamado e hoje é conhecido, se casou com Dona Anna Rodrigues França e foi residir no Sítio do Passo, onde morou por 6  anos, enquanto não lhe saiam os títulos de posse das Sesmarias requeridas da Campina do Rio Verde, do Rodeio e do Tamanduá. Residiam em uma casa emprestada por Dona Joanna Rodrigues França, proprietária da Sesmaria da Ilha. A Sesmaria fora recebida como dote de seu pai, Cap-Mor João Rodrigues França, para casamento com o Ten. Gal. Manoel Gonçalves da Cruz. Como Dona Joanna foi residir no Capão Alegrete com seu marido. O Sitio do Passo (mais tarde, após a metade do século XIX passou a se chamar Quarteirão do Passo) foi ocupado então pelo casal, e sua permanência evitava saques ou posseiros na área. Era o local equidistante entre Curitiba e os campos gerais, e seguia o mesmo trajeto do Caminho de Dom Rodrigo, tanto para as minas do Itambé como para as fazendas do Itaqui e o “passo” para o Javacaén (Bateias). A Sesmaria do Javacaén (Jaguacaén ou Jaguara = Cabeça de Onça) foi recebida do Cap-Mor João Rodrigues França como dote para casamento de Dona Anna com o Cap Antonio Luiz Lamin.

Na área do Sitio do Passo residiam servos e índios preados que trabalhavam na fazenda de engorda de gado vacum e muares, comercializados para alimentação e trabalho, mas minas do Itambé ou em Curitiba.

Antonio Luiz Tigre e o Cap-Mor João Rodrigues França vieram juntos na bandeira de Dom Rodrigo Castell Blanco, que era o Administrador das Minas de Paranaguá, para conhecer as minas do Itambé, do Assungui, e as minas da Serra da Prata (que nunca existiram). Eram conterrâneos de Sant’Anna do Parnaíba, portanto um laço de amizade e de negócios existia, culminando também com o casamento com Dona Ana, filha mais nova que o Cap-mor teve com a amante, Maria da Conceição.

Nasceu em 1648 na Vila de Sant’Anna do Parnaíba em São Paulo, filho de Antonio da Motta Maris de Oliveira e de Dona Maria de Pina.

A diferença entre seu sobrenome e o de seus pais criaram em torno das biografias e heráldica um certo mistério. Pouco se sabe antes de sua vinda para Curitiba em 1679. Não possuía parentes e também não deixou descendentes diretos. Entre os herdeiros, alguns que descendiam de seus pais. Também adotaram outras sobrinhas de sua esposa, que mais tarde foram dotadas para seus casamentos e adotaram o sobrenome “Luiz Tigre”. Dona Maria, casada com Miguel Fernandes de Siqueira e Isabel, filha de Domingos Gonçalves Padilha com Dona Ana de Mello Coutinho, que foi batizada com o sobrenome do tio “Luiz Tigre”.

Ávido comerciante, comunicativo e ativo, em 1705 era arrendatário da venda dos direitos de fabricação de aguardente e de tecidos de algodão de Curitiba. Poderia ter usado o nome de José Dias Lamin em anos anteriores para administrar estes negócios (isto é especulação).

Foi o responsável pela criação do Povoado do Tamanduá, que era um entreposto comercial no caminho das tropas que vinham de Sorocaba para Viamão e vice-versa. Fornecia cartas de crédito para que os tropeiros não viajassem com dinheiro. Os pagamentos no retorno eram feitos em dinheiro, ouro, mas principalmente em cabeças de gado vacum e muares.

Todo o material necessário para o abastecimento das tropas era fornecido por ele, da mesma forma, no retorno das tropas, o gado ficava confinado nos numerosos currais das suas invernadas de engorda. Os tropeiros levavam roupas, tecidos, ferramentas, aguardente e alimentos adquiridos no Tamanduá, para serem comercializados ou trocados por gado no Tape ou nos Sete Povos das Missões, no Rio Grande de São Pedro do Sul. Muito próximo ao Tamanduá estava o “Registro”, onde era cobrado o Pedágio Real.  Era a única passagem segura do gado pelo rio na região. O gado vinha pelos campos de Lages, já tendo cruzado o primeiro pedágio no Rio Pelotas. Exaustos após dias ou meses de viagem, não havia naqueles dias um outro local tão adequado para descanso. O Tamanduá viveu dias de muita grandeza, com o aumento da população e a ocupação do território por novos proprietários sesmeiros vindos de Santos, São Vicente e Paranaguá. Mais tarde o “Registro” foi mudado para o Porto Nossa Senhora da Conceição do Caiacanga. Ali foi construída uma ponte sobre o rio, pelo Mestre Manoel, o que mudou um pouco o caminho das tropas, fazendo o contato direto entre A Vila do Príncipe (Lapa) e a Freguesia de Sant’Anna do Iapó (Castro).

Em 1709 foi erigida no Tamanduá, pelos Frades Carmelitas de Itu, a primeira Capela Curada da Região. Era de madeira, levantada de forma tosca, mas que atendia aos anseios espirituais e deveres religiosos dos que residiam na região compreendida entre o Viamão e Sorocaba. Em 1727 a doação das terras para a construção da Capela foi feita por Antonio Luiz Tigre e sua esposa Dona Ana.

Compreendia meia légua de terra, e de patrimônio, sete escravos, 200 vacas, 20 touros e um cavalo, em escritura de doação foi lavrada em 21 de abril de 1727 . O Capitão Tigre e o Cap-Mor João Rodrigues França levavam todos os seus servos, índios e escravos para serem batizados da Igreja de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais em Corityba (Curitiba). A Capela Curada era uma necessidade da região.

O Capitão Tigre recebeu por testamento a imagem de Nossa Senhora da Conceição do Cap. João de Carvalho Pinto e o pedido para que construísse uma Capela para a Santa.

A imagem teria pertencido à esposa do Cap. Povoador Matheus Martins Leme, Dona Antonia de Góes, a qual teria deixado para seu filho Matheus Martins Leme – O Moço. A imagem durante anos teve sua veneração acontecida na Matriz de Corityba, e era festejada no seu dia. Por uma calúnia e acusação de crime por seu compadre, o Mestre Cap. José Nicolau Lisboa, que lhe devia dinheiro e negava a dívida, dizia ter o Capitão mandado matar uma sua escrava como retaliação. O Cap. Antonio Luiz Tigre provou a injustiça da acusação, mas a decisão foi retirar a Santa da Matriz e construir uma capela para ela em sua fazenda no Tamanduá. Como vários de seus cunhados eram padres, filhos do Cap-Mor João Rodrigues França, não foi difícil ser promovida uma administração eclesiástica. A Capela foi terminada em 1730. A autorização para os atos religiosos foi solicitada e obtida por provisão do Bispo de São Paulo Dom Francisco de S. Jerônimo.  A Capela foi construída com pedras e barro e coberta com telhas goivas, do tipo português. Após o falecimento de Dona Anna, a Capela foi instituída, em escritura lavrada em 15 de janeiro de 1731, como herdeira universal de seus bens. Uma fortuna dividida em 4000 cabeças de gado vacum, 600 cavalgaduras, escravos e outros bens imóveis Capitão Luiz Tigre, como era chamado informalmente, foi personagem importante na história do desbravamento dos campos gerais e da criação da Vila de Corityba, onde ocupou vários cargos de muito destaque. Assinou juntamente com o Cap-Povoador Matheus Martins Leme e outros moradores a solicitação para a criação da Justiça e Câmara de Corityba, em 29 de março de 1693. Homem de posses, riquíssimo, foi juiz ordinário em 1700 e 1702, o que equivaleria a ser prefeito da cidade ou presidente da câmara nos dias atuais, quando ainda residia no Sítio do Passo. Foi vereador de Corityba em 1710 e procurador do Conselho da Câmara em 1711, 1715 e 1718.

Homem de quem se contam muitas “histórias e causos”. Era tido como herói por uns e como bandido por outros. Ainda são contados sobre o valor deste homem para a Vila de Corityba e para o Tamanduá…

O povoado viveu e prosperou sob o seu comando, era considerado um homem enérgico e correto, mas que, enquanto era temido por uns, era também apreciado por sua natureza humanitária. Possuía dois fiéis escravos, Calumi e Juci que eram seus seguranças e executores de ordens. Eram temidos e respeitados por sua audácia e pelos seus atos.

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Desenho do pintor “Debret”. Na legenda em francês está escrito: Escravo negro conduzindo a tropa na província de Rio Grande.

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Desenho mostrando um chefe de tropa de comércio com as vestimentas típicas. Mais ao fundo, servos negros “enseliando cavalos”.

Curiosidade: “O uso de bombachas nas terras do Sul, só começaram a ser vestidas para montaria na época da guerra do Paraguai, enviados ‘aos gaúchos’ pelo governo francês, para lutar contra as tropas do Ditador Solano Lopes, no final do século XIX.

A história do Capitão Tigre continua na próxima edição… Capítulo IX –

Para quem mora em Balsa Nova.

E mais… A história verídica do roubo da Santa

 

*Os artigos e opiniões publicados são de inteira responsabilidade dos autores, não refletindo necessariamente a opinião dos editores.

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1 comentário

  1. Boa tarde, Parabéns
    Gostei muito de seu artigo, ainda mais porque alguns dos nomes citados também aparecem em um pesquisa que estou fazendo sobre minha família.
    Gostaria de entrar em contato com o senhor para poder confirmar algumas citações que encontrei.

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