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CAPÍTULO IX – OS ÚLTIMOS DIAS DO CAPITÃO TIGRE E DA FREGUESIA DO TAMANDUÁ

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A Carta Régia de Dom João III que versava sobre a elevação de pelourinho ou de um povoado a Vila, de 1535, dizia não se poder erigir um a menos de seis léguas da sede de qualquer Capitania. A Capitania de Paranaguá, já não era mais termo. Paranaguá já não possuía esta autonomia, era agora subordinada à Capitania de São Paulo. Para tanto, o povoado poderia existir e mais tarde possuir algum tipo de autonomia. Valores humanos não faltariam para isto, e muitos homens influentes que residiam no Tamanduá e no Rio Verde estavam prontos para isto. Em 1820, o Príncipe Regente de Portugal e do Mestrado, Cavalaria e Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, D. Pedro de Orleans ainda acatava as ordens de D. João VI, que regia as colônias a partir de Portugal. Próxima estava a hora em que se declararia a Independência do Brasil.

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Em 20 de março de 1813 a Capela do Tamanduá foi erigida à Nova Freguesia Colada, com as divisas estabelecidas às de Curitiba em edital de 6 de maio de 1813, e lançado no Livro do Tombo nº 1 da Capela em 17 de junho de 1815.

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Imagem da Capela de Nossa Senhora da Conceição, no Tamanduá – Balsa Nova – Paraná

O edital dizia: “Ao vigário de Tamanduá, por Felisberto Gomes Jardim, Cavaleiro Professor da Ordem de Cristo, Arcipreste da Catedral da Cidade de São Paulo, Juiz Comissário da divisão das Freguesias de Tamanduá e Curitiba, por comissão do Exmo. Sr. Bispo… em que citava: e vem a ser o termo evidente entre ambas as freguesias o Rio Itaqui, na ponte da estrada, e porque corre tortuoso, ficará endireitado seu rumo, o ribeirão denominado Catandubas que embeiça com o Rio Verde, ficando assim pertencentes a Tamanduá os moradores do Rodeio. Fica esta Freguesia dividida da Vila do Príncipe (Lapa) pelo Rio do Registro (Iguaçu) e com a Freguesia da Vila de Castro serve de divisa o Rio denominado Tibagy e o Ribeirão Santa Rita, que faz barra no mesmo Tibagy, as quais divisas servem desde o tempo que esta Matriz era Capelania Curada. Para constar fiz esta declaração. Tamanduá, Freguesia de Nossa Conceição, 18 de junho de 1815. O Vigário Manoel Domingues da Silva Braga”. Frases copiadas fielmente do Edital lançado no Livro Tombo n. 1.

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Ata de Criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Tamanduá (Parte1)
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Ata de criação da Freguesia do Tamanduá, (foto da página original- parte2) conforme texto citado acima.

Biografia de Antonio Luiz Lamim (continuação do CAPÍTULO VIII)

O Cap. Antonio Luiz Tigre foi proprietário das Sesmarias do Rodeio obtida em 1702, a qual deixou em escritura pública de 24 de janeiro de 1726 para o Ten. Cel. Braz Domingues Vellozo meia légua de terras, além de outras tantas também no Rodeio, mas próximas ao Campo Largo, doadas como dote de casamento de sua sobrinha Catarina. Da Campina do Rio Verde, obtida em 12 de abril de 1706 doou para Felipe de Santiago meia légua de terras como dote para o casamento com Dona Maria da Luz Siqueira, sua sobrinha. Para Pedro Siqueira Cortes doou metade da Sesmaria do Javacaén, como dote do casamento da sobrinha, Dona Anna Maria Gonçalves Coutinho. A outra metade da Sesmaria do Javacaén foi doada ao Ten. Cel. Manoel Rodrigues da Motta como dote para o casamento com a sobrinha Dona Helena Rodrigues Coutinho, lavrado por escritura pública de 27 de abril de 1717. Estas terras e seus bens e pertences recebidos pelo Ten. Cel. Manoel Rodrigues da Motta foram doados à Igreja de Nossa Senhora do Terço, de Corityba. Da Sesmaria do Tamanduá, obtida em 1702 todas as terras e pertences foram doados à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, de Santos.

O Cap. Antonio Luiz Lamim, “O Tigre”, ou Antonio Luiz Tigre, Capitão Luiz Tigre ou Capitão Tigre, faleceu em 30 de dezembro de 1738 aos 90 anos de idade. Ficou como seu procurador e testamenteiro o Ten. Cel. Manoel Rodrigues da Motta, e após seu falecimento, seus herdeiros doaram o Tamanduá ao Convento do Carmo. Tempos depois as terras do Tamanduá foram a “Hasta Pública” (Leilão), e arrematadas pelo Cavaleiro Brigadeiro Manoel de Oliveira Franco.

CAPÍTULO IX – O CONTATO DO CAPITÃO TIGRE COM O CAMPO LARGO2

Antonio Luiz Lamim e a esposa, Dona Anna Rodrigues de França residiram no Sítio do Passo por 6 anos, de 1696 a 1702. Construiu currais de engorda de gado vacum e muares. O local era estratégico. Era o “passo” entre o caminho de Dom Rodrigo e o Javacaén (Bateias), terras que pertenciam a sua esposa. Ficava exatamente no centro do caminho entre a Vila de Corityba, o Javacaén (Bateias), as lavras do Itambé e o caminho para os campos gerais pelo Itaqui, através do Campo do Meio, Rodeio e Bugre, até o Tamanduá. Eram menos de 3 horas à cavalo ou 4 horas de charrete até os limites do Barigui e entrada da Vila de Corityba. O primeiro caminho, conhecido na época como “Caminho da Cata ou estrada da Cata”, saia da Campina de Dom Rodrigo (Sede da hoje Ferraria), em direção ao Leste (hoje Estrada do Bolinete), em direção à Campina do Rio Verde (hoje Colônia Balbino Cunha), indo em direção à Serrinha, passando pelo Rodeio Santo Antonio e Capela do Bugre, subindo a Serra até a fazenda dos Carlos (Estrada do Amola Faca), atravessando o Rio das Mortes, em direção à Capela do Tamanduá.

Próximo também estava a ferraria e celaria no Botiatuva (Campina do Dom Rodrigo – Ferraria). O Campo Largo era apenas um local de passagem por estes caminhos, sem casas, mas em local estratégico, alto e seco, com uma chapada de campo aberto entre os capões de pinho e pinheirais.

Antonio dos Santos Soares, ouvidor de Paranaguá, casou-se com Dona Joanna Rodrigues de França, proprietária da Sesmaria da Ilha, que havia recebido de seu pai como dote para o primeiro casamento com Manoel Gonçalves da Cruz. Dona Joanna agora estava em seu terceiro casamento. Antonio administrava as fazendas dos campos gerais e os currais do Sítio do Passo. Mesmo sendo proprietários, nunca residiram no local. Quando não estavam em Paranaguá, estavam na sede da Fazenda dos Papagaios, no Capão do Alegrete.

O contato com o Campo Largo pelo Capitão Tigre pouco existiu até meados do século XVIII, quando já se formava uma aglomeração de casas dispostas à beira do Caminho. Antonio Luiz Lamim entrou com um requerimento de posse das áreas devolutas da Sesmaria da Ilha em 1729, mas foi indeferido já que a área já estava ocupada por novos donos (Domingos Lopes Cascaes e Dona Joanna Gonçalves de Siqueira) e cujo traçado, mais tarde passou a ser o Caminho da Mata, (por conta de quem fez o novo traçado (Ten. Cel. Manoel Rodrigues da Motta),  que no futuro mais tarde seria chamada  Estrada do Mato Grosso. Não há registros da influência de Antonio Luiz Tigre diretamente na formação do sítio, do quarteirão, do povoado ou da Vila do Campo Largo.  O que há é o contato direto com seu cunhado Ouvidor Antonio dos Santos Soares com relação aos currais, e que acabou sendo motivo para a confecção do primeiro mapa da região, onde todos estes currais foram indicados, desde o Campo Largo até os Campos Gerais.

As terras do Tamanduá, Rodeio, Campina do Rio Verde, Javacaén e Ressaca, foram propriedades de Antonio Luiz Tigre, mas quando o sitio do Campo Largo começou a ser efetivamente povoado, por volta do ano 1814, estas terras já pertenciam a outras pessoas. Até 1961 estas terras fizeram parte da divisão geopolítica do Município de Campo Largo, sendo passado o território ao novo município emancipado chamado Balsa Nova. Outras áreas já faziam parte de outros municípios. A fazenda Papagaios pertencia a Porto Amazonas e outras fazendas ao Município de Palmeira. Parte da Ressaca, que hoje se chama Luiz Tigre pertencem ao Município de Campo Magro.

Antonio Luiz Lamim “O Tigre” se tornou desafeto politicamente de pessoas influentes da Villa de Nossa Senhora da Luz, e acabou sendo prejudicado em seus negócios, com o novo traçado das estradas que iam aos Campo Gerais e pelo novo caminho das tropas, que não passava mais pelo “Registro do Rio das Mortes”, passando a ser o novo Registro a passagem do Caiacanga pelo Rio Iguaçu, que se chamava “Rio Grande que leva ao Paraná”. Para conhecer melhor, o local é onde em 2020 fica a Cabanha Valente e a Usina Hidrelétrica. O local, até o final do século XIX se chamava “Portão”, por conta do portal onde deveriam passar por baixo todos os animais, materiais e carroças de transporte das mais diversas, que deveriam pagar as taxas para cruzar o Rio Iguaçu, e irem na direção da Villa do Príncipe (em 2020, Cidade da Lapa). Depois da passagem de D. Pedro II pelo local, em 1880, (vindo de Palmeira e indo para a Villa do Príncipe), sofrida e trágica para toda a comitiva, e com o contato com os moradores da Villa, um novo traçado começou a ser pensado, que ligaria a Vila do Príncipe aos Campos Gerais, conectando com a Estrada do Mato Grosso, direta até “Lagoão”, com travessia de Balsa no local “Rodeio Grande”, já em Campo Largo, abriria a possibilidade futura de um novo povoado, “A Balsa Nova”. Mas este é um assunto para mais tarde, na “História do Distrito de João Eugênio”, hoje Cidade de Balsa Nova.

O FIM DO CENTRO DE COMÉRCIO E RELIGIOSIDADE DO TAMANDUÁ

Em 1756 a “Guerra Guaranítica” mudou a divisão geopolítica do Rio Grande de São Pedro do Sul. O fim das Missões Jesuíticas pelo Marques de Pombal e a necessidade da ocupação das terras na região chamada “Sete Povos das Missões”, que foram tomadas pelos portugueses com o auxílio dos espanhóis, após uma luta sangrenta que matou mais de dois mil índios em menos de 2 horas, e a morte do líder indígena “Sepé Tiaraju”, abriu caminho para a chegada dos “Gaúchos”, que eram mercenários vindos da Província de Sacramento (hoje Uruguai), patrocinado pelo estancieiros de Bagé e Pelotas, que tomaram as terras e mataram os últimos índios restantes, que não fugiram para o “Tape”, norte da Argentina ou para o “Chaco” e Salto Del Guayrá (hoje Paraguai).

O novo contato dos tropeiros, que era feito através do caminho pelo Rio Negro até Vacaria, pela, passou a ser feito pela região de Lajes, e o “Novo Caminho das Tropas” tirou da Região de São Luiz do Purunã a condição de única passagem tropeirista fazendo com que a população se deslocasse para outras rotas econômicas vindas de Castro pela Atalaia (Campos de Guarapuava).

Assim, quase esquecido o Tamanduá deixou de ser uma região religiosa e comercial, e o novo trajeto, que passava pela região de Palmeira, com a criação de uma nova Freguesia, tirou toda a condição religiosa da Capela de Nossa Senhora da Conceição do Tamanduá, que, embora tenha se tornado Freguesia Colada em 1813, com a criação das Freguesias da Palmeira em 1819, perdeu suas dividas e foi anexada à Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Campo Largo, criada em 1841.

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Ruinas da Casa Grande da Fazenda dos Carlos, que no Século XVII foi a administrado pelo Padre Doutor José Rodrigues França no início do Século XVII. Hoje, na atual Estrada do Amola Faca, no antigo trajeto que ligava a Capela do Bugre à Capela do Tamanduá, primeiro caminho para os Campos Gerais, aberto em 1702.

 

*Os artigos e opiniões publicados são de inteira responsabilidade dos autores, não refletindo necessariamente a opinião dos editores.

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