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CAPÍTULO X – A DECADÊNCIA DO TAMANDUÁ:

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Vida curta para a Freguesia do Tamanduá. O povoado em decadência há mais de um século era motivo de toda a sorte de desavenças, ciúmes e vinganças. O caminho das tropas já não mais existia na região e foi deliberadamente mudado. O enfraquecimento das lavras na região do Itambé e o êxodo da população em busca de outras lavras nas Minas Gerais, o desinteresse pelo negócio de conduzir as tropas, e principalmente, a mudança do “Registro” do Caiacanga para Rio Negro, simplesmente reduziu os negócios e a possibilidade do desenvolvimento. A morte de Dona Ana Rodrigues França, esposa do Cap. Antonio Luiz Lamim “Tigre”, o fez desistir dos negócios, vendeu parte da Sesmaria do Rodeio, doou parte da Sesmaria do Javacaém e da Capina do Rio Verde, deixou a Sesmaria do Tamanduá para alguns de seus descendentes, que posteriormente doaram as terras à Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Santos. Em 1747 o Padre Manoel Domingues Leitão, Pároco da Igreja de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais registrou a não existência da Capela Curada de Nossa Senhora da Conceição, e nem mencionou os seus padres residentes, o Frei Bernardo de Godói e o Padre Inácio Pinheiro Rodrigues França que era o cooperador da Capela. No Livro do Tombo nº 1 pg 3 e 6 da Matriz, escreve: “… Para parte do poente tem bastantes fazendas chamadas ‘os Campos Geraes’, tem cincoenta e seis fogos (famílias) ou casais, mas também parecem que não podem erigir Capela ou sustentar Capelão, porque maior parte ou quase que todos os donos das ditas fazendas são moradores das Villas de Santos, Paranaguá, Itu e da Cidade de São Paulo...”

Esta desatenção se devia ao fato da informação dos Padres do Tamanduá, que o Padre Manoel cobrava quantias indevidas por ministério religioso, cobrava taxas para os serviços da Igreja e não assentava em seus livros as quantias recebidas. Foi chamado a dar palavras ao Visitador Ordinário das Vilas do Sul, Padre Doutor José Rodrigues França, por quem foi “recomendado” a agir de forma metódica em seus assentamentos. Por vingança, não registrou a existência da Capela e de seus Padres em suas anotações no Livro Tombo. A expulsão dos Jesuítas do Brasil, pelo Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho Mello), foi outra queda para a participação religiosa cristã na região. Nem mesmo a construção de uma casa conventual pelos Carmelitas conseguiu aglutinar o povo. Os bens pertencentes à Companhia de Jesus (Jesuítas) foram sequestrados, por decreto de 19 de janeiro de 1759, e os moradores restantes deixaram a região para povoar outras áreas. Nos tempos áureos do Tamanduá centenas de famílias residiram na região, se ocupavam no trabalho das fazendas e nas tropas de gado. Existiu a possibilidade do povoado levantar um “pelourinho” e se transformar em “Villa”, mas seus próprios moradores assim não o quiseram, todos tinham seus afazeres nas Vilas de Santos, muitos estavam politicamente ou comercialmente ligados às Vilas de Paranaguá e de Curitiba. Outras fazendas possuíam administradores não proprietários. Várias propriedades, por heranças, acabaram pertencendo a poucos donos. Com o falecimento do Cap. Antonio Luiz Lamim “Tigre” em 30 de dezembro de 1738, ficou como procurador da Capela o seu testamenteiro e sobrinho herdeiro Cel. Manoel Rodrigues da Motta, que ao seu falecimento, as posses do Tamanduá foram doadas ao Convento do Carmo de Santos, com a condição de rezar missas aos domingos. Braz Domingues Velloso, também seu sobrinho, ficou com as terras do Rodeio onde era morador e proprietário. As doações foram assentadas e registradas na folha 33 do Livro 4 do 1º Tabelião de Curitiba. Tudo foi feito conforme as necessidades, e com todos os proventos para manter a construção e seus arrabaldes.

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A Carta Régia de Dom João III que versava sobre a elevação de pelourinho ou de um povoado a Vila, de 1535, dizia não se poder erigir um a menos de seis léguas da sede de qualquer Capitania. A Capitania de Paranaguá, já não era mais termo. Paranaguá já não possuía esta autonomia, era agora subordinada à Capitania de São Paulo. Para tanto, o povoado poderia existir e mais tarde possuir algum tipo de autonomia. Valores humanos não faltariam para isto, e muitos homens influentes que residiam no Tamanduá e no Rio Verde estavam prontos para isto. Em 1820, o Príncipe Regente de Portugal e do Mestrado, Cavalaria e Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, D. Pedro de Orleans ainda acatava as ordens de D. João VI, que regia as colônias a partir de Portugal. Próxima estava a hora em que se declararia a Independência do Brasil.

Em 20 de março de 1813 a Capela do Tamanduá foi erigida à Nova Freguesia Colada, com as divisas estabelecidas às de Curitiba em edital de 6 de maio de 1813,  e lançado no Livro do Tombo nº 1 da Capela em 17 de junho de 1815.

O edital dizia: “Ao vigário de Tamanduá, por Felisberto Gomes Jardim, Cavaleiro Professor da Ordem de Cristo, Arcipreste da Catedral da Cidade de São Paulo, Juiz Comissário da divisão das Freguesias de Tamanduá e Curitiba, por comissão do Exmo. Sr. Bispo… em que citava: e vem a ser o termo evidente entre ambas as freguesias o Rio Itaqui, na ponte da estrada, e porque corre tortuoso, ficará endireitado seu rumo, o ribeirão denominado Catandubas que embeiça com o Rio Verde, ficando assim pertencentes a Tamanduá os moradores do Rodeio. Fica esta Freguesia divisa da Vila do Príncipe (Lapa) pelo Rio do Registro (Iguaçu) e com a Freguesia da Vila de Castro serve de divisa o Rio denominado Tibagy e o Ribeirão Santa Rita, que faz barra no mesmo Tibagy, as quais divisas servem desde o tempo que esta Matriz era Capelania Curada. Para constar fiz esta declaração. Tamanduá, Freguesia de Nossa Conceição, 18 de junho de 1815. O Vigário Manoel Domingues da Silva Braga”. Frases copiadas fielmente do Edital lançado no Livro Tombo n. 1.

A Capela não recebeu mais os cuidados necessários para sua conservação e no início do Século XIX se encontrava arruinada e os serviços divinos executados esporadicamente. A população tentou tomar a Capela dos Carmelitas e enfrentou a recusa. Designado para os ofícios de capelania, o Padre Antonio Duarte de Passos não conseguia mais fazer com que os fiéis contribuíssem com a Capela, ou que tivessem zelo por ela, nem os mesmos apareciam para os ofícios religiosos. No aguardo de fundos que deveriam ser fornecidos pelo Rei do Brasil, e querendo formar uma nova freguesia em local mais habitado, obedecendo ordens do Bispo de São Paulo, em 12 de agosto de 1818 entregou a Capela e seus bens e retirou-se para formar uma Freguesia Nova no povoado da Palmeira. A criação de novas freguesias diminuiu em muito o comparecimento de fiéis no Tamanduá, principalmente pela dificuldade de locomoção.

Os fregueses da Capela Sant’Anna do Yapó (Yapok) precisariam transpor o Rio Tibagy, mesmo fazendo viagens de horas e até dias para chegar ao Tamanduá, conforme a necessidade. Os da Freguesia de Santo Antonio da Lapa (Mais tarde “Villa do Príncipe” hoje Cidade da Lapa) tinham que transpor o rio do Registro (Iguaçu), e em dias de cheia também não chegavam à Capela.

Já os moradores mais próximos, os da Palmeira, se ressentiam de ter que caminhar horas na direção de um pequeno povoado, quando o seu próprio possuía um grande número de famílias e a vontade de possuir uma Capela própria.

A Capela do Tamanduá há muito estava fora do roteiro dos viajantes e das tropas, os fazendeiros já não possuíam mais interesse em que ela existisse, ela existiu por obra de Antonio Luiz Lamim “O Tigre” e seus cunhados eclesiásticos, filhos do Cap-Mor João Rodrigues de França, para facilitar o batismo e casamento dos moradores e viajantes. Já não era mais a única no trajeto entre Sorocaba e Viamão.

O ROUBO DA SANTA

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Nossa Senhora da Conceição, doada Por Mateus Leme “O Moço”, a pedido de seu pai Mateus Leme a Antonio Luiz Lamim, “O Tigre”, para que se construísse uma Capela para Ela. (Poucos ou quase nenhum campo-larguense a conhece). É a mesma que está na Igreja dedicada a Ela na Cidade de Palmeira-PR. (Foto: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná).

Os motivos da mudança para uma Nova Freguesia eram simples: As vantagens oferecidas ao Padre Antonio Duarte de Passos como: escolher o local para ser construída uma Igreja Sede da Freguesia. O prestígio e respeito que gozava o Tenente Manoel José de Araújo (Pimpão) com os novos fregueses da Capela não deixaram dúvidas. O Padre escolheu o local no Rincão dos Buracos. A Capela foi construída, de Madeira, e teve como padroeira Nossa Senhora da Conceição, a mesma da Capela do Tamanduá. Em 7 de abril de 1819 o Ten. Araújo doou as terras à Capela, e o Padre Antonio ficou como Vigário até 1824, quando foi substituído pelo Padre Ponciano José Araújo, por coincidência irmão do Tenente. Um golpe na ingenuidade do Padre Antonio.

Em 12 de agosto de 1818, quando o Padre Antonio Duarte de Passos e alguns moradores do Tamanduá se retiraram para a Palmeira, levaram consigo a Santa, e é claro, como se fazer uma nova Capela sem a Santa? Quando os habitantes do Tamanduá deram pela falta da Santa Padroeira do local, reuniram-se, armaram-se e foram atrás dos retirantes. Enquanto os “ladrões” repousavam às margens do Rio dos Papagaios foram abordados pela tropa armada, que tomada de toda a ira não deram chances à conversa. No retorno foram recebidos com vivas e salvas de tiros e recolocaram a Santa no lugar. Segundo os moradores da região, a Santa era Milagrosa.

Muitos a procuravam para batizar seus filhos ou serem abençoados em seus casamentos. Já os ex-moradores da região que se retiraram para a Palmeira, não mais retornaram, deixando de frequentar os ofícios. O final da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Tamanduá aconteceu no dia 12 de março de 1841, quando perdeu esta condição e passou a fazer parte da Freguesia Colada de Nossa Senhora da Piedade, desmembrada de Curitiba e confinada entre as Freguesias de Curitiba e a Freguesia da Palmeira. Maria Bueno (Maria da Conceição Bueno 8/Dez/1554 – 29/jan/1893}, considerada milagrosa, foi frequentadora da Capela do Tamanduá, ela que nasceu no dia de Nossa Senhora da Conceição.  Querubina Rosa Marcondes de Sá casou-se com o Barão José Caetano de Oliveira naquela Capela. Anos mais tarde (30/agosto/1880 ela recebeu o título de Viscondessa do Tibagi).

O Tamanduá como Povoado não teve influência na formação de Campo Largo, embora o Sitio do Campo Largo estivesse dentro da Sesmaria da Ilha, que pertenceu a Dona Joana Rodrigues França, recebida como “dote” para seu primeiro casamento, e tenha sido povoado pelos seus servos, escravos, funcionários e proprietários, além da sede da Casagrande. No quarteirão do Passo era a casa onde Antonio Luiz Lamim, (Antonio Luiz Tigre), como ficou conhecido, residiu por 6 anos com a esposa Dona Ana Rodrigues França, até que recebesse a carta de posse das Sesmarias da Campina do Rio Verde, do Rodeio e do Tamanduá em 1702. Deste mesmo lugar o Ouvidor Antonio dos Santos Soares seu cunhado do terceiro casamento de Dona Joana, administrava a engorda do gado e os muares trazidos dos Campos Gerais e vendidos em Curitiba. Osvaldo dos Santos Soares nunca residiu em Campo Largo. Quando se casou com Dona Joana, deixou de ser Ouvidor em Paranaguá, e administrava as fazendas da Sede da Fazenda dos Papagaios no Capão do Alegrete. Osvaldo dos Santos Soares foi responsável pelo primeiro mapa onde o Campo largo é citado, desenhado em 1728 e chamado em linguagem dos nossos dias: “Verdadeira descrição dos Campos Gerais de Curitiba, desde o Campo Largo até o Cambeju, com os currais que há neles”. É o mapa da região mais antigo conhecido que destaca este tipo de trabalho tropeirista. Em livros de historiadores mais antigos, o Tamanduá encontra-se fortemente ligado à Cidade de Campo Largo, isto não seria contestado em um passado não muito distante. Até o ano de 1964, a Campina do Rio Verde, o Rodeio, o Bugre, São Luiz do Purunã e o Tamanduá faziam parte das terras de Campo Largo, em sua divisão geopolítica. Neste mesmo ano de 1964 as terras foram desmembradas do Município de Campo Largo e passaram a fazer parte do recém criado Município de Balsa Nova (25/Jan/61).

Por anos, no mês de dezembro, no segundo domingo, era comemorada com festa campal e missa, com a presença de milhares de devotos e festeiros. A maior festa religiosa dos Campos Gerais. Milhares de pessoas vindas de toda a região passavam o dia comemorando, comendo churrasco, galeto, passeando pelos bosques, comendo jabuticabas, ou indo à pé até o Rio das Mortes ou ao Rio Iguaçu. Um dia que os mais velhos que estão lendo agora aqui, tenho convicção que lembrarão para sempre.

Textos baseados em informações dos livros: “Aconteceu nos Pinhais” de Veiga Lopes, “Genealogia Paranaense” de Francisco Negrão. Documentos originais pesquisados por Renato Hundsdorfer: “Livro Tombo Nº1 da Capela de Nossa Senhora da Luz do Pinhais”, livro de inventários do 1º Tabelionato de Curitiba. Arquivo Público do Paraná, Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. Transcrições do livro “A Verdadeira História do Campo Largo” de Renato Hundsdorfer.

 

 

*Os artigos e opiniões publicados são de inteira responsabilidade dos autores, não refletindo necessariamente a opinião dos editores.

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