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    Porta-retratos

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    O porta-retratos é o espelho que guardamos para o outro.

     

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    Ela sempre deu grande importância para porta-retratos, achava que a causadora dessa quase-compulsão-e-mania fosse sua mãe mas a verdade é que herdou de seu avô. Seu avô coleciona fotos em porta-retratos, fez de sua casa um museu contando, através de porta-retratos, sua história.

    Toda vez que ela entra na casa de seu avô, fica submersa por um sentimento de pertencimento e de amor.  Seu avô, carinhosamente, procura o porta-retrato de cada pessoa amada que vai visitá-lo.

    Foi desse jeito que ela compreendeu que porta-retratos é o espelho que guardamos para o outro. Sem ele, somos turistas em nossas casas. Sem ele, podemos partir a qualquer hora. Sem ele, não temos laços e raízes, não cultivamos a nostalgia um pouco por dia.

     

    Você só tem um porta-retratos na casa de quem te ama muito. É preciso ser muito, muito, muito especial pra poder ter espaço no porta-retratos de alguém.

     

    Certa vez ela perteceu ao santuário de amor e de ternura, a gruta de protegidos e protetores e se juntou a família do seu primeiro amor, com um porta-retratos seu na casa da mãe dele.

     

    Toda vez que ela olhava aquele porta-retratos,

    (com vestido azul turquesa, emaranhada nos braços dele), sentia-se pertencida àquela família. Sentia-se parte de algo que tanto amava, que tanto queria, que tanto desejava.

     

    Um dia a mãe dele tirou o porta-retratos dela do santuário.  Foi só então, que ela entendeu que realmente era o fim.

     

    Sem que ela soubesse, abriu dentro dela um espaço vazio, não ser um porta-retratos de alguém gente, pode ser uma devastação.

     

    Mas ela só deu conta disso anos depois quando envolvida-amorosamente-afetivamente-sexualmente-intensamente por um novo grande amor, ele resolveu lhe dizer que ela não faria parte do santuário de porta-retratos da mãe dele. Provavelmente pela quantidade exagerada de amores que ele fazia descer goela baixo de sua mãe, ela, com-muita-determinação- resolveu que não colocaria mais porta-retratos dele.

    O porta-retratos é o nosso livro para fotos.  Encadernamos alguém em nosso amor. Há um luto tremendo em tirá-lo de nossas vidas.

     

     

    Aí ela começou a pensar que nunca se sentiria pertencida a ele.

    Ela também pensou que talvez aquela fala poderia ser um ato falho dele.

     

    -Que cargas d’água leva alguém a dizer esse tipo de coisa para quem supostamente quer ficar?

     

    Talvez ele só quisesse deixar claro que não era pra ela criar expectativas.

    Talvez   tudo aquilo fosse loucura da cabeça dela.

    Talvez ela só queria ter uma porta-retratos seu no centro do universo de alguém.

     

    Por mais que seja anacrônico, por mais que seja rudimentar, por mais que seja artesanal, permanece sendo a galeria mais visível de nossas afeições, com um valor maior do que uma foto de tela no celular.

     

    Foi aí que ela rumou para o centro da cidade, entrou em várias lojas, comprou um monte de porta-retratos e fez das paredes da sua vida espelhos das pessoas que amava, guardando com carinho cada lembrança, cada memória e sentiu-se o centro do seu universo. Por fim, pertencida verdadeiramente.

     

    Ps: ainda tem um porta-retratos vazio e que ficará vazio, para lembrá-la das possibilidades da vida.

     

    *Os artigos e opiniões publicados são de inteira responsabilidade dos autores, não refletindo necessariamente a opinião dos editores.

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