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    Eu não vou dizer

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    Eu não vou dizer que quando seu corpo saracoteava diante de mim, todas as células do meu corpo pularam de uma maneira que me fez sentir viva, muito mais viva do que já estive.

    E que quando você se abaixou e colocou seus olhos fixamente olhando para os meus, elas (essas células safadinhas) se reproduziram freneticamente, fazendo do meu corpo muitos outros corpos.

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    Eu não vou te contar que naquele instante meus olhos se perderam nos seus, e me vi com a ânsia de um asmático que busca pela sua bombinha, com o desespero de um fumante que procura por uma loja de conveniência aberta em plena madrugada na pandemia.

     

    E que quando você sorriu com essa sua boca totalmente-beijável- mostrando esses dentes lindamente enfileirados e esbranquiçados, me senti como uma coca-cola bem gelada em dia de verão, e vinho com fondue no inverno (aquele do sul).

     

     

    Não vou te contar que apreciei embasbacada o modo como sua camisa bordô cintilava na luz amarela do bar, e que denunciava o contorno dos seus ombros largos e detalhava o desenho do seu peitoral.

    Ao mesmo tempo que seu sorriso frouxo encantava e tomava conta do salão, algo em ti denotava que há alguns dias se deixava de lado. Será que tinha tido crise de ansiedade na sexta a noite? Será que discutiu com a mãe ou com a namorada? Seria ele um homem autossuficiente a ponto de não se incomodar com os olhares perseguidores de uma mulher qualquer?

     

    Como podia a melancolia e a sensualidade andarem ao mesmo tempo naquele corpo, e de uma forma tão intensa que cada movimento faziam dele todo dança.  Um corpo falante que não podia falar e que precisava dançar para poder se expressar.

     

    Não vou confessar que quando o som da sua voz chegou ao meus ouvidos me deparei com a falta de noção do perigo de uma criança que atravessa a T 9, e a T 63 fora da faixa de pedestres e sem um adulto, ou com a ingenuidade de um idoso que morou a vida inteira no interior e que cai no golpe do bilhete premiado.

    Não vou te falar que sei exatamente o momento que fiquei hipnotizada por você, até porque não sei se foi seu olhar, sua voz ou todos os músculos do seu corpo dançante que te fizeram um enigma pra mim.

     

    Eu não vou te dizer nenhuma dessas coisas.

     

    Tô com medo de ter deixado escapulir da minha boca o desejo de morar embaixo da sua pele, que parece tão mais confortável do que a minha, e mais ainda de ter te deixado saber que me sentia tão conectada a você que tinha a nítida sensação de que você era capaz de ler os meus pensamentos. Então eu não vou falar mais nada agora, porque se eu falar demais eu posso te assustar e te fazer afastar de mim e ainda quero que pedaços seus tiquetaqueiem no meu corpo.

    Quero sentir cada vez mais esses efeitos infernais que a velocidade com a qual você pisca os olhos causa em mim.

     

    E é por isso que não vou dizer nada, nadinha.

     

    *Os artigos e opiniões publicados são de inteira responsabilidade dos autores, não refletindo necessariamente a opinião dos editores.

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